Após a decretação da liquidação extrajudicial da Will Financeira, clientes do Will Bank foram surpreendidos na manhã desta quarta-feira, 21, com o bloqueio de suas contas e a interrupção do funcionamento dos cartões. Na prática, a decisão do Banco Central retirou a fintech do sistema financeiro nacional.

Apesar da paralisação dos serviços, as obrigações financeiras dos clientes permanecem válidas. Faturas em aberto e parcelamentos realizados no cartão de crédito continuam exigíveis. “A liquidação da instituição não elimina as dívidas do consumidor. As obrigações precisam ser quitadas normalmente”, explica o advogado Bruno Boris, sócio fundador do escritório Bruno Boris Advogados.

Dívidas continuam sujeitas a juros, multas e negativação

O não pagamento das faturas pode gerar as mesmas penalidades previstas em contrato, como juros, multas e eventual inclusão do nome do consumidor em cadastros de inadimplentes. Segundo a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e conselheira do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (CORECON-SP), as compras já realizadas mantêm plena validade.

“O cliente deve continuar pagando as parcelas conforme contratado. O atraso pode acarretar encargos financeiros e risco de negativação, mesmo com o banco em liquidação”, afirma.

Quem será responsável pela cobrança do cartão de crédito

Com a liquidação extrajudicial, o Banco Central nomeia um liquidante responsável por administrar o processo. Entre suas atribuições estão a venda de ativos, o pagamento de credores e a condução da cobrança de dívidas existentes.

As faturas de cartão de crédito integram os ativos da instituição e passam a ser administradas pelo liquidante. “A dívida permanece sendo um passivo do consumidor, que passa a ser cobrado pela entidade responsável pela liquidação”, esclarece Beni.

No caso do Will Bank, o Banco Central designou como liquidante Eduardo Félix Bianchini, ex-servidor da autarquia, com experiência em outros processos semelhantes e atualmente também à frente da liquidação do Banco Master.

Recursos em conta corrente e investimentos permanecem bloqueados

Clientes que mantinham saldo em conta corrente ou investimentos no Will Bank não conseguem, por ora, movimentar os valores. O acesso aos recursos dependerá da atuação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Criado em 1995, o FGC funciona como um mecanismo de proteção aos depositantes, garantindo o reembolso de valores mantidos em contas correntes e de determinados investimentos de renda fixa, como CDBs, LCIs, LCAs, RDBs e a poupança, dentro dos limites estabelecidos.

No entanto, o processo de liberação dos valores não é imediato. “Mesmo diante da instabilidade, os recursos estão preservados. O cliente deve manter a cautela, registrar eventuais tentativas de saque ou pagamento e aguardar orientações oficiais do banco ou do Banco Central”, orienta o economista Fábio Murad, CEO da Super-ETF Educação.

Como referência, no caso do Banco Master, cuja liquidação foi decretada em novembro de 2025, os valores só passaram a ser disponibilizados para solicitação pelos investidores na última segunda-feira, 19.

Relatos de instabilidade já vinham sendo registrados

Antes da decretação da liquidação, clientes do Will Bank já relatavam dificuldades no uso dos cartões de crédito. Desde a terça-feira, 20, os cartões deixaram de funcionar, situação atribuída à falta de repasse da instituição à empresa responsável pelo processamento dos pagamentos — fator que motivou a intervenção do Banco Central.

Usuários também afirmam que os problemas se estendiam por meses. “Eu tentava usar o cartão mesmo com saldo disponível, mas as transações eram recusadas. Achei que fosse instabilidade, mas a situação se repetia”, relata a personal trainer Wanessa Karla, que ficou com R$ 100 bloqueados em sua conta, agora com notificações de suspensão emitidas pelo Banco Central.

RELAÇÃO DO BANCO MASTER E PEDIDOS AO FGC

O caso do Will Bank guarda relação direta com o Banco Master. A Will Financeira integrava o grupo do Banco Master, instituição que também se encontra em processo de liquidação extrajudicial conduzido pelo Banco Central.

No caso do Banco Master, cuja liquidação foi decretada em novembro de 2025, os pedidos de ressarcimento ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passaram a ser liberados apenas em maio de 2026, evidenciando que o acesso aos valores protegidos pelo fundo pode demandar um intervalo significativo entre a decretação da liquidação e a efetiva disponibilização dos recursos aos clientes.

A experiência do Banco Master reforça a orientação para que clientes do Will Bank acompanhem atentamente as comunicações oficiais do Banco Central, do liquidante nomeado e do próprio FGC, reunindo documentos e registros que comprovem saldos e investimentos mantidos na instituição.

Embora os valores cobertos pelo FGC permaneçam garantidos dentro dos limites legais, o histórico recente demonstra que o processo não é imediato, exigindo organização, cautela e acompanhamento constante por parte dos clientes afetados.

Fonte: IstoÉ Dinheiro